quarta-feira, 25 de maio de 2011

Encontro

Sua presença invade a casa, o coração
E sem pedir licença meu olhar se põe a brilhar
E atravessa o dia com enorme afeição
Sua companhia, o bem que me faz

E por um momento nossos olhares se encontram
E sem tormento o tempo parece parar
E nessa tarde, meus braços te chamam
Sem alarde, clamando por se entregar

Nessa história os pés se confundem
Na memória que guardei sem esquecer
Foi lembrança que em um dia certeiro
Intensamente eu me pus a viver

La fora a neve cai e eu vejo pelo vidro embaçado
Todos os sentimentos que em mim haviam morado

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Seus pés tocam a grama fofa, enquanto os meus pisam em pedra polida.
O sopro frio da noite o acalenta, enquanto o ventilador modestamente me conforta.
Suas paredes são de ar, são da cor do mundo. Enquanto as minhas são de gesso branco.
Ao adormecer, a ultima imagem que seus olhos captam é da bela lua, enquanto tudo o que os meus vêem é um tolo teto.
Quem sai perdendo, afinal?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Little Dancer

Ela morava no prédio em frente ao meu cursinho de francês.
2º andar, primeira janela da direita para esquerda.

Foi numa quinta-feira durante uma longa e entediante aula de língua francesa que eu me distraí e deixei-me levar pelo movimento dos carros e pedestres na rua lá embaixo.
Pessoas passando e carros buzinando. Fazia frio lá fora.
Até que fui despertado de meus devaneios por uma singular imagem que me fez virar o corpo em direção à janela, e esquecer de fato a aula que rolava na sala em que eu me encontrava sentado.
Havia uma garotinha de 5 anos, no máximo, na varanda do prédio em frente, trajando apenas um vestido rosa e um laço no cabelo. Movimentava seu corpo de forma aleatória e delicada, enquanto seus bracinhos serpenteavam levemente acima de sua cabeça.
À distância em que eu estava, e com o vidro da janela fechado, não era possível ouvir música alguma proveniente de seu apartamento. Logo, aos meus olhos, a menina dançava o som da cidade. Dava pequenos pulinhos e movia o pescoço, enquanto ria sozinha.
Outro aluno sentado ao meu lado percebeu o que me chamava a atenção, e observou a garotinha dançar também. Depois riu debochando da felicidade alheia – o que me enfureceu momentaneamente.
Mas mesmo com alguns pedestres que riam de seus movimentos, a garotinha parecia não se incomodar. Continuava majestosamente sua dança e ria deliciosamente, como só as crianças fazem.

Na terça-feira seguinte, sentei-me no mesmo lugar na classe e esperei com crescente expectativa a dança da pequena garota, para me divertir e fazer-me sentir infantil e despreocupado de novo, mas ela não apareceu. Nem na quinta-feira seguinte, nem na outra terça.
Ela não voltaria mais. Eu não mais veria seus passinhos. Então guardei na memória aquele doce momento que
vos contei aqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fez silêncio no mais alto grito
Abraço na mais longa distância
Brincadeiras na maior tolerância
Onde teu corpo já se fez perito

Te foi alegria em meio a tempestade
Beijo sem sentir rancor
Paixão com um toque de cor
O tom da vida, da felicidade

E foi amor o tempo inteiro
Sem duvidar de sua veracidade
Sem jogo, sem maldade
Anseio que se fez certeiro

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Anjo e o Sol Poente

Havia um anjo.
Não era menino, não era menina. Não tinha cabelo, vidro ou parafina.
Aquilo era apenas um anjo.
Todas as tardes, desde a criação, o anjo sentava na mesma pedra terrestre, e esperava o sol se por.
Não havia endereço, teatro ou companheiros.
Só havia uma bela imagem a seu dispor.
Certo dia, o anjo esperou, esperou de frente ao céu poente, mas nada do sol descer.
E então ele esperou, e esperou, pois tinha toda a eternidade a perder.
Até que o anjo notou depois de muito tempo passar,
Que aquilo que ele tanto esperava, não iria mais se concretizar.
Havia uma obra humana na frente, um edifício.
E enxergar o sol se por dali, era uma tarefa muito difícil.
Pobre anjinho.
Pensava a todo momento: “Quando será que os terríveis humanos irão aprender Que de nada vai importar a moeda, se o sol não aparecer?”.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Saudade

E se a saudade em sua displicência
Contracenar com minha dor no peito
E em meio a tanta indolência
Deixar meu canto meio sem jeito?

E se sua falta pesar em mim
E o meu pranto, minha comoção
O dia chegar ao fim
Com seu beijo na imaginação

Não, por fim eu não vou deixar
A distância se por a apagar
Seus braços dos braços meus

E não haverá quem nos separe
Quando, em fim, tu voltares
Praquela que não te esqueceu

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Pianista

Nevava lá fora.
Ele adentrou silenciosamente a loja de instrumentos musicais, apesar do badalo dos sinos pendurados na porta. Era natal.
Talvez fosse pelo mau cheiro, ou pelas roupas rasgadas e inadequadas, aquele senhor chamou a atenção de todos os clientes da loja, inclusive a minha. Aparentou não notar os olhares que o julgavam, assim como o fato de uma das clientes ter cutucado um dos vendedores e apontar “tire já este indigente daqui”. Mas o vendedor não o fez, apenas sorriu para a mulher e pediu-lhe que esperasse um momento.
E levou apenas um momento até que o senhor mendigo alcançasse o fundo da loja, onde havia a seção de pianos. Sorriu para um modesto piano rubi, e sentou na banqueta.
Cheguei mais perto.
Tirou suas luvas surradas, deixando-as cair organizadamente próximas aos seus pés, e soprou as mãos para aquecê-las, presumo eu.
Gentilmente pressionou duas teclas brancas e esboçou um leve sorriso de prazer ao ouvir o ruído produzido. Então ele prosseguiu.
Sol, Do, Do, La.
Suas mãos encardidas sutilmente tocavam as notas da melodia mais doce de todas as já ouvidas. Dinamicamente inclinava seu corpo e movia o pescoço, enquanto os dedos arduamente bailavam pelas teclas, como se as conhecessem muito bem, produzindo o som que me fez arrepiar.
Sol, Sol, La Do Mi.
Dois vendedores se entreolharam e sorriram. Estávamos todos divinamente contagiados.
Finalizou a canção e abaixou a cabeça. Sem esperar aplausos ou vivas. Apenas apanhou suas luvas e, sem dizer uma palavra, saiu da loja, fazendo os sininhos da porta novamente badalarem ao passar.
Quem era aquele homem e por que havia feito aquilo, eu não sei.
Mas considerei este o meu presente de natal.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Mar

Encharca o rosto e lava a alma
Escorre pela face silenciosa e tortuosamente
São as lágrimas num momento sem calma
Que deslizam como o sol poente

E nessa praia o meu barco se afunda
Entre os motivos que te fazem chorar
Seu coração quebrado se inunda
Com as palavras que o fizeram afogar

E entre as ondas que vão balançando
Você questiona o seu paradeiro
Não sabe se o mar o foi levando
Ou se a correnteza o traiu primeiro

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Nos perdemos nos enredos de ambição e ousadia
esquecemos que o amor é nossa única companhia

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Veja! O espetáculo está armado
O ás está jogado
E ninguém pôde vencer
Veja! A promessa foi quebrada
A chatagem profanada
Acabou de anoitecer
Agora veja como fostes tonta
Nos dias que perdestes a conta
De quantas lágrimas deixou rolar
Veja que não houve história
Você repetiu a tragetória
E nem quis acreditar
Não ouviu as juras que recitei
Agora, sozinha, chora
Sofrendo porque foi embora
Todo amor que eu te dediquei.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ruas intercaladas constituem os pavimentos
dos sonhos e amores que caem no esquecimento

sábado, 11 de dezembro de 2010

Pretérito Aceso

Atirou-se em sua confortável cadeira de couro preta, e visualizou sua imagem refletida na tela do monitor desligado a sua frente.
Os anos estavam passando e isso se encontrava estampado em seu semblante gasto e cansado. A cópia da cópia das células de sua pele já não era tão autêntica com o andar do tempo. Passou a mão por seu cabelo bagunçado e sorriu. Pronto, ficava mais bonita assim.

Essa seria uma manhã como outra qualquer para Helene. Acordar, preparar um café amargo, checar os e-mails de seu chefe, coçar a barriga de seu fiel companheiro canino Fido e partir para o trabalho apressada.
Mas, ao digitar o login e entrar em sua caixa de entrada, ela percebeu que um e-mail diferente aguardava ser lido nessa manhã, com o título “pretérito aceso”.
Ergueu levemente uma sobrancelha enquanto esperava a mensagem carregar. Esta dizia:

Querida eu,
daqui 8 anos, se Deus não me levar cedo, estarei sentada em algum lugar do mundo encarando a tela do monitor e lendo essas palavras que eu mesma programei para receber, daqui a exatos 96 meses. Será Roma? Será Paris? Ou continuará sendo São Paulo?
Olá, eu! Será que agora é manhã, tarde ou noite? Eu Perdi a mania de entrar na internet de madrugada? Meu cabelo finalmente cresceu o bastante pra esconder aquela cicatriz feia resultante daquele dia com a bicicleta do Marcelinho? –espero que sim!
Seja como for, eu só estou aqui pra te lembrar da promessa que eu fiz a mim mesma ontem, sobre nunca mais exagerar no leite condensado com Nescau. Nunca mais, hein.
Eu espero mesmo que tudo de bom aconteça na sua vida. (minha, hehe). Saiba que eu rezo todos os dias por você, e torço para que sua vida não caia na rotina normal de todo mundo, como você nunca quis que caísse. Por favor Helene, não alimente uma vida banal. Faça algo por você mesma, e não deixe que o tempo passe correndo por ti. Aproveite cada segundo de liberdade que você tem, agora que é maior de 18 anos!
Pegue o carro da mamãe (ou o seu carro mesmo) e saia da cidade, vá até a lagoa onde não há mais ninguém, sente e espere anoitecer junto às plantas.
Lembra quando você subia sozinha toda tarde na cobertura do prédio da vovó, só pra ver o sol se por? Você levava o violão e tocava uns acordes pensando no João.. Será que ainda o ama? Será que estão juntos?
E aquele projeto ambiental do ensino médio? A quantas anda?
Oh Helene, eu realmente espero que você não arruíne tudo aquilo que eu planejo. Eu realmente espero que tudo corra como nós sempre quisemos...”.

Secou algumas lágrimas, vestiu-se casualmente e saiu batendo a porta atrás de si.
Hoje ela vai ver o pôr-do-sol.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

De Todo Amor

E se eu pudesse meu futuro olhar
E nele eu não te encontrasse,
Minha vida eu ia querer tirar
Por não haver alguém que eu amasse

E quando nessa estrada eu pisar
Tudo, meu bem, será diferente
Seja aqui ou em qualquer lugar
Verás que te quero realmente

Agora eu só vejo você
E sinto a chuva lá fora
De seus braços eu não vou me perder
Saudade que chega e demora

E se um dia você se afastar
Deixando-me só em meu desalento
A alegria vai te acompanhar
E a mim só vai caber sofrimento.

domingo, 14 de novembro de 2010

lamentável mente

Partilhamos na mesma emoção uma só convicção
Partilhamos os nossos problemas com uma só intenção.
Partilhamos a mesma noite, o mesmo filme e a mesma história
Partilhamos abraços, os mesmos medos, carências e trajetória.
Partilhamos o mesmo querer, o mesmo sentir e o mesmo sofrer
O mesmo banco, o mesmo canto e o mesmo anoitecer.
Mas o mundo não é belo, querido, ele é cheio de vaidade
E agora, conformados, partilhamos a mesma saudade.

Vivemos os mesmos dilemas e nos enchemos de promessas
Palavras vazias e noites acordadas, agora confessa
Que durante todos esses meses, só uma coisa nos fez continuar
O medo de não haver alguém com quem pudéssemos contar

É que o mundo não é belo, querido, ele é cheio de vaidade
E agora, conformados, partilhamos a mesma saudade.