sábado, 11 de dezembro de 2010

Pretérito Aceso

Atirou-se em sua confortável cadeira de couro preta, e visualizou sua imagem refletida na tela do monitor desligado a sua frente.
Os anos estavam passando e isso se encontrava estampado em seu semblante gasto e cansado. A cópia da cópia das células de sua pele já não era tão autêntica com o andar do tempo. Passou a mão por seu cabelo bagunçado e sorriu. Pronto, ficava mais bonita assim.

Essa seria uma manhã como outra qualquer para Helene. Acordar, preparar um café amargo, checar os e-mails de seu chefe, coçar a barriga de seu fiel companheiro canino Fido e partir para o trabalho apressada.
Mas, ao digitar o login e entrar em sua caixa de entrada, ela percebeu que um e-mail diferente aguardava ser lido nessa manhã, com o título “pretérito aceso”.
Ergueu levemente uma sobrancelha enquanto esperava a mensagem carregar. Esta dizia:

Querida eu,
daqui 8 anos, se Deus não me levar cedo, estarei sentada em algum lugar do mundo encarando a tela do monitor e lendo essas palavras que eu mesma programei para receber, daqui a exatos 96 meses. Será Roma? Será Paris? Ou continuará sendo São Paulo?
Olá, eu! Será que agora é manhã, tarde ou noite? Eu Perdi a mania de entrar na internet de madrugada? Meu cabelo finalmente cresceu o bastante pra esconder aquela cicatriz feia resultante daquele dia com a bicicleta do Marcelinho? –espero que sim!
Seja como for, eu só estou aqui pra te lembrar da promessa que eu fiz a mim mesma ontem, sobre nunca mais exagerar no leite condensado com Nescau. Nunca mais, hein.
Eu espero mesmo que tudo de bom aconteça na sua vida. (minha, hehe). Saiba que eu rezo todos os dias por você, e torço para que sua vida não caia na rotina normal de todo mundo, como você nunca quis que caísse. Por favor Helene, não alimente uma vida banal. Faça algo por você mesma, e não deixe que o tempo passe correndo por ti. Aproveite cada segundo de liberdade que você tem, agora que é maior de 18 anos!
Pegue o carro da mamãe (ou o seu carro mesmo) e saia da cidade, vá até a lagoa onde não há mais ninguém, sente e espere anoitecer junto às plantas.
Lembra quando você subia sozinha toda tarde na cobertura do prédio da vovó, só pra ver o sol se por? Você levava o violão e tocava uns acordes pensando no João.. Será que ainda o ama? Será que estão juntos?
E aquele projeto ambiental do ensino médio? A quantas anda?
Oh Helene, eu realmente espero que você não arruíne tudo aquilo que eu planejo. Eu realmente espero que tudo corra como nós sempre quisemos...”.

Secou algumas lágrimas, vestiu-se casualmente e saiu batendo a porta atrás de si.
Hoje ela vai ver o pôr-do-sol.

15 comentários:

  1. Muito futuro!!! Demais!

    ResponderExcluir
  2. É muito talento!.......

    ResponderExcluir
  3. Voce será uma grande intelectual.

    ResponderExcluir
  4. Triste constatação: deixamos de viver tantas coisas.......
    Porem ao ler esse texto que vc escreveu, consigo projetar a visita a um amigo, a caminhada pela praia deserta, o telefonema para a amiga distante enfim, volto a me sentir viva!
    Devia ter amado mais.....(Titãs)
    Parabéns ou, chega de dar os parabéns, simplismente, até breve.....

    ResponderExcluir
  5. Diga-me quem é você! belos comentários, muito obrigada..

    ResponderExcluir
  6. Adorei seus textos.Parabéns!

    ResponderExcluir
  7. Gostei.É assim, que se começa.Hoje eu escrevo para 12 blogs e 3 sites.Que Deus te abençoe e os Anjos te acompanhem.

    ResponderExcluir
  8. Sou jornalista,da Academia de Letras e Artes do Planalto, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito, da Federação Internacional de Jornalistas e da ABI- Associação Brasileira.Tenha o meu carinho e o desejo de sucesso em sua vida.Avante menina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pelas palavras, leitura e apoio, Solano!

      Excluir