domingo, 7 de outubro de 2012

reino de loucos

Há algum tempo atrás, papai me contou uma longa história.
Ele começou dizendo que, em algum lugar bem distante, nos confins do universo, existe uma bola gigante de matéria em resfriamento. Ele me contou que essa bola gigante é inteiramente azul, com algumas porções de massa verde.
Essas porções de massa verde são politicamente dividas em territórios.
“Mas quem divide essas massas?” eu perguntei.
Então ele me respondeu que essa bola gigante é abarrotada de vida. Vida, segundo ele, é um conjunto pluricelular que forma um organismo. O principal órgão desse sistema é o cérebro. Papai disse que o cérebro é responsável por comandar tudo o que acontece dentro desses organismos. E como o número de vidas é muito grande, esse cérebro acaba controlando toda a bola gigante.
Tem vida na parte azul e tem vida na parte verde, e quem mora na parte verde fez questão de dividi-la em territórios.
“Entenda, aquelas vidas não suportariam viver juntas, filha. Então elas tiveram que dividir o espaço...” ele me disse.
Papai me contou também que essas vidas se desenvolveram bastante com o passar do tempo, e que lá, elas arranjam explicação científica para tudo. Elas até começaram a se chamar de... ‘humanos’.
Esses humanos, habitantes dessa bola gigante, vivem de forma totalmente animal. Eles são basicamente controlados por instintos como a fome, o sono, o frio e, principalmente, o ódio.
“Mas o que é explicação científica, pai?” Eu questionei.
Então ele me disse que esses humanos passam muito tempo estudando... Ele disse que eles conhecem toda a estrutura interna da bola, os movimentos que ela realiza em torno do Sol, a força que puxa tudo o que tem na bola e até a pressão do ar em cima da bola.
Ele me disse que essa bola é chamada de Planeta Terra. O que, segundo ele, é uma grande injustiça, uma vez que a percentagem de água no Planeta Terra é maior do que a de terra, e que lá, todos os humanos necessitam de água para viver. Até o sangue deles é composto por água!
“Sangue?” eu perguntei.
Então papai me explicou que sangue é um líquido vermelho presente no organismo, e que esse líquido é fundamental, pois ele carrega todas as substâncias que o corpo pede, de um lado para o outro.
Desde sempre, no Planeta Terra, os humanos derramavam o sangue uns dos outros, em disputas chamadas ‘guerras’.
Derramava tanto sangue que o organismo morria. E eles faziam isso em nome dos territórios... Pois, como papai já disse, eles não suportariam viver juntos.
Os humanos são tão influenciáveis que, como forma de ‘controlar’ essa falta de solidariedade, eles inventaram as leis. Leis são um conjunto de normas que todo humano deve seguir para viver melhor no planeta. Assim que o humano nasce, cai sobre ele uma série de normas e regras impostas pela sociedade, que ele aprende desde o berço. Assim, o humano permanece sempre em posição inercial, pois ele é incluído nesse sistema no momento em que nasce, e ele não pode mais sair. E o sistema é cruel...
Os humanos são sujos. Jogam lixo até fora da Terra, poluem até a camada que os mantém vivos, protegendo-os do Sol. Os humanos degradam, matam e desmatam tudo o que um dia foi vivo. Eles sofrem... ah, como eles sofrem.
-Pai, eu não quero ser humano.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ver para quê

E qual a serventia da visão, se não mera contextualização?
Pois o sábio sabe que pode sentir as estrelas sem vê-las.
O músico enxerga a melodia sem observa-la.
E o amante...
O amante experimenta todos os gostos e sentidos da paixão, com o simples perfume da amada.

Oh, quando os olhos se fecham o mundo se abre...

Fim

E quando você me estendeu a mão,
Meu coração se encantou em comoção.

Tola fui eu que não percebi
Que aquele teu gesto, era o gesto de partir.

domingo, 8 de julho de 2012

A Vida é um Labirinto


Ao passar pela porta, notou que a mesma se fechou atrás dele com um baque surdo. Respondendo a um ligeiro instinto de remorso que surgiu em seu estômago, tentou abri-la, mas tarde demais, ao que parecia, a porta estava trancada.
Virou-se e começou a caminhar o corredor que se estendia longo e ameaçador à sua frente. Dobrou a esquerda, caminhou um pouco mais, virou à direita e deparou com uma bifurcação. Seguir reto ou virar à esquerda?
Decidiu seguir reto e após alguns minutos topou com uma escada que subia tão alto ao ponto que seus olhos não enxergavam o topo dela. Sem hesitar ele subiu, subiu cada degrau torcendo para que todos os caminhos que ele tivesse escolhido até ali o guiassem até seu destino certo. Mas ao chegar ao topo da escada percebeu que nada havia ali. Só havia uma parede à sua frente, que na verdade era o teto. Sem alçapões, túneis ou qualquer tipo de passagem.
Virou-se e desceu a escada, caminhou mais alguns minutos e topou novamente com aquela bifurcação. Dessa vez, escolheu o outro caminho, e seguiu nele. Sua excitação aumentando a cada passo. –Será que agora finalmente encontrei a saída final? – andou mais umas horas, e topou com uma parede, nada mais.
A decepção brotava de cada poro de seu corpo, agora todo suado, e sua cabeça doía toda vez que ele soprava o ar de cansaço.
Retornando, concluiu que errara todo o seu caminho, e estava disposto a traçá-lo novamente, desde o princípio, mas na direção oposta agora, quando se deu conta de que ele já não sabia o que era esquerda e direita, o que era oposto e definido, o que era frente e muito menos o que era trás.
Aquele labirinto era demasiadamente azul e seus sentidos o traíam toda vez que ele mudava de direção. Os ponteiros de seu relógio giravam no sentido anti-horário agora, e ele não mais sentia o tempo passar.
Levantou-se com grande esforço e começou a correr. Não sabia do que estava correndo, por que estava correndo e sabia muito menos para onde estava correndo.
Até que observou uma estranha figura no fim do corredor. Tinha certeza que já tinha passado por ali antes e a figura não estava lá. Aproximou-se o bastante para ver um velho sentado numa cadeira de balanço, jogando seu corpo magro para frente e para trás, enquanto ria da cara do moço cansado e confuso.
-Por que está rindo de mim? – O rapaz perguntou.
-Michael, Michael... Você não precisava ter corrido, nem se desesperado. – Respondeu o velho com ar de sábio – Mas ainda bem que me encontrou.
-Como sabe meu nome?! O senhor me conhece?! Foi você que me pôs aqui? – Ele gritou, estava ficando de fato apreensivo.
-Michael, eu sei de tudo. – Respondeu o velho, cada vez mais tranqüilo e confortável em sua cadeira.
-Sabe de tudo, é?! – Rosnou Michael – Então me conta o que vai acontecer comigo agora!
Ajeitando seu manto calmamente, o velho nem levantou a cabeça para responder: -Você vai morrer, é claro – E sorriu.
-Velho maldito! – Gritou Michael – Como ousas me mandar para esse lugar, me deixar sozinho e perdido e depois... tirar minha vida?!
-A culpa não é minha de você ter vindo ao mundo, Michael. Os humanos adoram me culpar por sua existência vazia. – O velho desabafou – E, a propósito, eu não vou tirar a sua vida, meu querido. Será que você ainda não percebeu que é assim? Vocês têm diversas opções e direções a seguir, e cada uma delas muda completamente todos as situações que o envolvem. A única coisa que eu faço é disponibilizar caminhos diferentes para que vocês mesmos possam traçar aquilo que acham mais conveniente.

-Então por acaso isso é algum tipo de jogo perverso no qual você fica observando tudo que acontece  para se divertir da miséria alheia? - Concluiu Michael, chutando uma lata de tinta vazia jogada ao seu lado. Ao chutar a lata se lembrou que ela não estava ali momentos antes.
Novamente o velho sorriu.
-Você está se equivocando, Michael. Como fez a vida inteira, em todos os caminhos que você tomou. Eles o trouxeram a esse ponto. Fico feliz que tenha me enxergado aqui. Já não há mais tempo de errar. Vamos começar de novo?
E então Michael se foi.

Último Adeus

Ele partiu em seu carro prateado
Deixando o coração da moça desamparado
Observando pelo vidro da janela a chuva que caía,
Ela amaldiçoava sua vontade de tê-lo, e sua covardia.
Ele foi embora
O que faria com seu amor agora?
Haveria de ser transformado em saudade
Todo o seu afeto, sua amizade.
Oh, quanta crueldade.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

... Acima de tudo, amo seu olhar calmo, que reflete o silêncio e a paz de um oceano. Pois ao mesmo tempo que soa infinito, revela a perfeição e harmonia em seu íntimo...

sábado, 12 de maio de 2012

Memórias Mortas


Caminhando lentamente pelo bosque, Marie avistou um banco. Um belo banco de pedra cinza entre as árvores. Pôde ouvir o canto dos pássaros e o som das folhas sendo pisadas enquanto aproximava-se para sentar. Ela estava apenas esperando o tempo passar, pois não havia muito o que fazer para uma mulher com sua idade, além de passar o tempo da forma mais calma e agradável possível.
Decidiu reparar no movimento em volta.
Um pai agachado ao lado de sua pequena filha, sorrindo para ela um sorriso terno, enquanto segurava suas mãozinhas e ajudava-a a andar. A menina ria despreocupadamente exercitando seus primeiros passos.
Um pouco mais ao lado, encostados em uma árvore, um casal de jovens parecia discutir. A menina levava as mãos à cabeça, ajeitando freneticamente os cabelos em sinal de nervosismo, enquanto seu rosto esboçava pura aflição. O menino tentava acalmá-la, mas a cada palavra o desespero da garota parecia maior. Um rio de lágrimas. Ele estava partindo.
Três mulheres sentadas na grama degustando saborosos pedaços de tortas, intercalando conversas e mastigação. Descalças, os sapatos jaziam ao lado da toalha na qual se encontravam sentadas.
Um senhor e uma mulher discutindo. Pela idade e pelo tom, ele parecia seu pai. Reprovava veementemente alguma ação tomada pela filha, que por se sentir adulta o bastante apenas negava com a cabeça enquanto retrucava, “não é bem assim...”.
Uma rajada de vento soprou e Marie abriu os olhos. Estava sozinha naquele bosque vazio. Há anos aquele lindo lugar havia se tornado o cemitério da pequena cidade na qual sempre morou. Cemitério aquele que agora guardava não só as mais belas árvores que já havia visto, como também as mais nobres lembranças de tudo que já havia vivido. Seu pai, seu primeiro amor e suas melhores amigas. Tudo que mais havia amado estava sepultado entre as covas, mas vivo e ardente em seu coração.
Levantou-se, deu mais alguns passos e largou o lindo buquê de flores que estava segurando em um dos túmulos.
Deu as costas e voltou a caminhar. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012


Às vezes a gente percebe que a noite é mais longa do que parece ser. Que a escuridão é inevitável e faz parte da natureza humana e do movimento do mundo. É que um segundo parece uma hora, e uma hora parece uma eternidade enquanto esse lado do planeta mergulha no oceano de escuridão. Você pede pro tempo passar rápido, mas os momentos se arrastam. Você pede por uma faísca de luz, mas as estrelas parecem distantes. E quando sente que não há mais esperança, você adormece. Seus olhos concordam em perceber que não há mais nada a fazer, a não ser se negarem a ver.
Mas lá fora a escuridão permanece...