sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Perdida entre os caminhos incertos na estrada da vida, a pequena garota se sentia sozinha em meio à multidão.
Sabia que havia um buraco, faltava matéria pra compor a substância de seu coração.

Ela vagava sem rumo e sem interesse em qualquer aspecto da vida alheia
Em seu peito, sabia que faltava uma faísca, uma centelha
Para reacender aquele sentimento que ela há muito havia esquecido
E por não se interessar por mais ninguém, julgava ser caso perdido.
A luz no fim do túnel era disforme e dispersa
Era um brilho inalcançável, então a pequena garota andava sem pressa.

Até que em um dia qualquer, sem nenhuma expectativa de mudança
A pequena garota encontra o grande rapaz, e em seu peito brota uma esperança
Aos poucos, os dois foram se chegando e se deixando conhecer
E entre tantas semelhanças, havia em ambos o encanto pelo anoitecer
A luz no fim do túnel foi ganhando forma e adquirindo um brilho característico
Havia um encanto acolhedor, um certo fulgor místico

Quando uma solidão encontra a outra, atenua a incerteza
O vento frio e a noite escura revelam a sua beleza
Beleza essa que meus olhos não serão capazes de esquecer
E quando o dia chega ao fim, tua lembrança vem me acometer.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pela Estrada a Fora Eu Vou Tão Sozinha

Nessas estradas eu vou encontrando resquícios de uma vida que eu julguei que estivesse perdida.
Descobri que é preciso mover-se do lugar para a mente poder se expandir, pois ninguém pode prender ao chão os pés que foram feitos para caminhar.
Ando à procura da auto-destruição que me fará conhecer meu verdadeiro ser, que agora se encontra coberto pelos restos de sujeira com a qual esse mundo moderno me soterrou. É preciso cavar para se desvencilhar dos escombros sujos dessa falsa felicidade. Só andando pelo mundo eu vou descobrir o que é amor de verdade. É o amor que aceita o movimento, que não constrói muros, não prende em tormento.
Ah, esse mundo tem beleza demais pra ficar escondida dos meus olhos.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Mágico e a Sonhadora

Andava distraída pelo museu quando foi subitamente tomada por uma incontrolável fadiga. Nada ali a interessava mais do que a poltrona que repousava acima do tapete preto no canto direito do aposento.
Sentou-se confortavelmente enquanto lutava contra a força que demandava que seus olhos se fechassem, mas era tarde demais.
Poucos segundos depois, Paloma já estava flutuando em um majestoso palácio persa, em meio a altos pilares, tapetes decorados e escadarias douradas.
Como todo bom sonho encantado, só poderia acontecer o óbvio: a mocinha tropeçou em uma lâmpada mágica. Grande achado!
Sabia como proceder nessa situação. Esfregou a lâmpada e com grande alegria recebeu o grande senhor mágico coberto em manto vermelho e sob uma boina azul. A estranha criatura recém-aparecida fez menção de que iria falar, mas Paloma o interrompeu e declarou: “Já sei, posso verbalizar três desejos”. – e esboçou um sorriso orgulhoso. O gênio apenas concordou com um aceno afirmativo da cabeça.
“Mas, pensando bem, eu só tenho uma coisa a pedir para o senhor...” – Falou timidamente a menina enquanto olhava para o chão.
O gênio aguardou.

Se me abençoasses com a oportunidade, eu gostaria de poder voltar aquele momento em que a paz e a tranquilidade dentro de mim foram plenas. Me envolveria mais uma vez nos braços dele, e novamente observaria a noite nos acalentando com seu sopro frio. Beijaria os mesmos lábios, escutaria a mesma melodia, e mais uma vez eu me entregaria com a ternura que agora inunda o meu coração.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Moonlight

Por sobre as nuvens a lua observava aquele casal peculiar que se mirava na calada da noite.
Ele, cão, desafiadoramente mostrou os dentes. Ela, lobo, astutamente pôs-se a admirar.
Rodeavam-se apenas observando. E quanto mais observavam, mais se impressionavam.
Antes não imaginavam que poderiam ter tanto em comum. Um cão e um lobo. Veio um do outro, ou foi similaridade que os aproximou?
A cada passo, chegavam mais perto. E quanto mais perto chegavam, mais agradava o cheiro.
Faros aguçados, pelos eriçados, caninos afiados e olhares astutos.
Permaneceriam sob o brilho da lua, em meio a esse oceano perdido na escuridão da incerteza.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Segredo Nosso

Se a minha mão tu segurasses,
Sentiria tudo aquilo que não posso dizer
Tu ouvirias as palavras agora emudecidas
 E a minha dor,  tua alma iria conhecer

Se em teus braços me envolvesse,
Saberias o quão perdida estou
Teu pranto logo surgiria
Tentando lavar a dor que restou

Se os teus lábios os meus tocassem,
Tu ficarias ciente da minha solidão
Sentirias a vontade que eu sinto
De renegar o meu coração

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Sábio e a Moribunda

Chorava tacitamente por tê-lo deixado partir. A menina de 13 anos se debulhava em lágrimas porque o suposto “amor de sua vida” havia partido, provavelmente encantado por uma outra alma tão imatura quanto a dos ex-amantes. Sentada na banqueta do piano e de costas para este, a menina soluçava alto e balançava negativamente a cabeça. Simplesmente não conseguia suportar a ideia de ter havido quebrado o seu coração. Pobre garota.
Seu avô, algumas décadas mais experiente e reflexivo, incomodou-se diante do desespero da decadente. Mas, já sabendo que longos discursos provavelmente não a atingiriam, resignou-se a escrever-lhe um bilhete com a seguinte frase:


Não deixe que o laço que te une a outra pessoa seja mais justo que o laço que te une a si mesma.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Avenida Amaro George

Bob passava as noites em claro. Desde o dia em que fora assaltado às 16 horas da tarde em plena Avenida Amaro George, nunca mais teve sossego.
Retraçava aquela tarde em sua memória inúmeras vezes. Relembrava todos os seus passos e todos os locais que havia frequentado, remontado o curso daquele dia de diversas formas e imaginando-se não passando naquela avenida naquele momento e voltando para casa em paz, comendo amendoins torrados. E quanto mais se lembrava daquele dia, sentia um aperto no coração um tanto mais profundo.
Trancando em seu quarto (simplesmente não admitia mais a ideia de permanecer em um cômodo de sua casa com a porta aberta), Bob se olhou no espelho. Viu refletido um homem com ares de exausto, olheiras pretas abaixo dos olhos amassados e cabelo sujo desarrumado. Com trinta e cinco anos aparentava ter cinquenta. Olhou para o lado e vislumbrou sua escrivaninha com um porta-retratos em cima.  Bob estava um homem completamente diferente daquele que sorria na foto ao lado de sua bela esposa, com uma criança a tiracolo.
Então Bob começou a lembrar-se de como sua vida havia mudado completamente nos últimos doze meses, desde o dia do assalto. Havia ficado carrancudo, mal-humorado e praticamente mudo. Não se interessava mais por nada. A única coisa que ocupava seus pensamentos era a retomada mental daquele dia infeliz, que o havia traumatizado de tal forma que ele não só perdeu a carteira e o celular, mas também o emprego, amigos, e até mesmo esposa e filho. Ninguém mais suportava ficar perto dele, ou ele não mais suportava ficar perto de alguém.
Abriu a segunda gaveta da escrivaninha e tirou de dentro uma arma. Era um revolver calibre .38 Special que havia comprado três semanas após o assalto,  obcecado pelo medo de se sentir vulnerável outra vez nas mãos de um agressor.  “É apenas um mecanismo de defesa, Jaque” justificava ele para sua esposa ao observar que ela quase teve um ataque do coração ao vê-lo chegando em casa com sua nova aquisição. “Eu não vou atirar em ninguém, é só para intimidar o filho-da-mãe”. Ele sempre se lembrava desse momento, uma vez que a compra da arma foi o estopim para sua esposa sair de casa.
Posicionou o revolver entre a calça e perna. Abotoou a camisa e saiu de casa. Tinha que sacar um dinheiro no banco. Andou até o ponto de ônibus e esperou o seu passar.

Timóteo havia dormido pessimamente mal aquela noite, revirando-se e virando-se em cama, quando seu relógio de cabeceira o despertou. Era o grande dia!
O rapaz de vinte e dois anos, carecido de dinheiro para alimentar seus vícios, tinha combinado com mais um colega fazer um “arrastão” naquele dia. Roubar dos transeuntes de um local fechado e em movimento. Nada poderia ser mais ideal do que um ônibus.
Timóteo estava preocupado. Diria desesperado. Não era de sua índole roubar algo de alguém, mas sua situação pessoal de dívidas e ameaças de morte o deixavam mais desesperado ainda. “Não vou machucar ninguém. Só levar deles aquilo que me faz falta. Tenho certeza de que eles conseguirão comprar seus bens de novo”. Repetia ele a todo o momento, como forma de se estimular.
Vestiu uma roupa preta, tomou um gole de café com leite o fumou um cigarro. Armou-se com uma faca (era tudo o que tinha), e saiu batendo a porta atrás de si.
Encontrou com seu colega próximo a uma banca de revista, local marcado por eles na noite anterior. Combinaram os últimos detalhes e partiram em direção ao ponto de ônibus mais próximo, que ficava na Av. Amaro George.
Enquanto caminhava até o ponto, Timóteo pensava o tempo todo em desistir. Mordia o lábio inferior tão forte por conta do nervosismo que logo começou a sentir um azedo gosto de sangue. Precisou fumar outro cigarro para se acalmar, mas o efeito esperado não aconteceu.
Ao chegarem ao ponto não precisaram esperar nem meio minuto e um ônibus apareceu. Timóteo olhou para seu comparsa, como que esperando que ele desistisse e os dois voltassem para casa comendo amendoins torrados, mas ele simplesmente balançou positivamente a cabeça. Fizeram sinal para o ônibus parar e então entraram.
Timóteo teria deixado tudo isso de lado e sentado em um banco qualquer, se seu colega não houvesse tomado a iniciativa de anunciar o assalto para todo o ônibus.
“Ouçam todos, isso aqui é um assalto” ele gritou. “Não precisam ficar nervosos, apenas quero que me passem tudo o que tiverem com vocês. Inclusive você”  ele falou enquanto olhava para o cobrador e apontava para a caixa de dinheiro, e nesse momento mostrou uma pistola (que os passageiros não imaginavam, mas era de brinquedo).
Virou-se para Timóteo e falou: "Enquanto eu pego esse daqui (referindo-se ao cobrador) tu vai e rouba esses que tão sentados aqui na frente".
Ao pular a catraca, Timóteo caiu duro no piso do ônibus.
Alguns passageiros gritaram ao verem que uma poça de sangue aos poucos se alongava em torno dele.
Ao ver o ocorrido, o comparsa encostou a pistola na testa do motorista e ordenou-o a parar o ônibus. Desceu correndo.
Acontece que sentado no primeiro banco do ônibus estava ninguém menos que Bob, que não pensou duas vezes e cravou uma bala no peito do “filho-da-mãe”. Sua reação foi como um reflexo. Ele simplesmente fez.

Pobre Timóteo, que não pretendia machucar ninguém mas foi morto violentamente e agora pagaria com a vida o seu erro.
Pobre Bob, que nunca pretendeu machucar alguém mas agiu impetuosamente e agora pagaria atrás das grades pelo seu erro.


Afinal, o que você faz daquilo que fazem de você?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Insônia

E de repente você sente aquele sopro chamar no meio da noite. O corpo precisa dormir mas a mente desperta. Instintivamente procura um foco de luz, algo que possa tirar-te da inércia do luar. Ao conferir as horas, descobre que esta ainda não era a hora de acordar. está muito cedo ou muito tarde, e você se sente sozinho. Como se toda a sua vitalidade houvesse partido com os últimos raios do sol. "Só mais duas horas até todos acordarem também", você se consola. Mas sabe que nada seria confortante agora, a não ser o descanso em fim.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Nestas ruas eu procuro o que possa me segurar
à razão,
Na falta de uma esperança só domina
a solidão,
Quando o coração é fraco não sustenta
o sorriso,
Sem amor não há quem encontre
o paraíso